Sobre palhaços, risadas e inclusão

O palhaço é o arquétipo universal do ridículo. Está presente dentro de cada um de nós e é aquela fagulha irracional, instintiva e primitiva que – em determinadas situações – nos permite agir sem pensar ou reagir a um estímulo da maneira mais pura: um susto, um espirro, um tropeção, por exemplo. São nestes momentos que estamos ali, sem máscaras, que mostramos nossa humanidade com todo o seu ridículo inerente.

A realidade palhacística está sempre ali, nunca dorme, mas frequentemente tentamos escondê-la atrás de um terno bem cortado, um corte de cabelo imponente, palavras rebuscadas ou até mesmo através de posturas ditas sérias, imponentes ou importantes. Uma função, um salário, um título podem aparentemente destacar a importância de alguém sobre os outros. Mas também destaca cada detalhezinho daquela natureza ridícula de humanidade. Somos, independente (ou não) de qualquer relação social, ridículos. E isso é bom.

“Velhas ridículas com chapéus absurdos, mulheres com sacolas de plástico na cabeça para se proteger da chuva, chapéus e casacos que encolheram, homens de negócios com pastas típicas.O mundo está povoado de palhaços.

- Federico Fellini em Fellini por Fellini

Não confunda palhaço com aquele que é feito de idiota. Frequentemente usamos o termo para criticar algo ou alguém. O palhaço não é feito de idiota. Ele é idiota por si só. É a ingenuidade pura de lógica própria e instintiva.

O Clã – Estúdio das Artes Cômicas é um núcleo cênico que pesquisa a realidade cômica brasileira a partir da linguagem do palhaço – o momento em que as máscaras cotidianas caem e dão lugar apenas ao indivíduo ridículo em sua totalidade no fazer artístico. São parceiros recorrentes da Biblioteca de São Paulo em espetáculos, contações de história e intervenções. Sempre sucesso.

Por muitos domingos eles animaram a biblioteca com suas personas-palhaças. No dia 7 de setembro, comemoração do dia da independência, eles encarnaram personagens bem especiais. Caracterizados como a família real portuguesa eles divertiram gente de todas as idades – pois palhaço não é nem deve ser apenas para crianças – através de técnicas cômicas inspiradas nessa tradição.

Ora, mas palhaço não tem que ter nariz vermelho?

Não necessariamente. Pense em Charles Chaplin, Buster Keaton, Didi Mocó. São palhaços que não usavam o signo universal da “classe”, a menor máscara do mundo. E os palhaços-atores do Clã eram uma família real ridícula, engraçada, cheia de tiques, lógicas próprias, instintos e sentimentos escancarados: inveja, compaixão, raiva, ternura.

E o público ri quando um deles se atrapalha, ri quando sente compaixão, ri quando se identifica com alguma situação. Riem quando vêem figuras tão distintas e importante cometendo as mais incríveis idiotices.

O riso é democrático e todo ser humano é risível. O riso com o outro, o riso de si mesmo.

Risada tem tudo a ver com inclusão, pois é através dela que nos aceitamos e aceitamos ao próximo. E por isso palhaços têm tudo a ver com a Biblioteca de São Paulo, um lugar em que inclusão é a palavra-chave. Ninguém é melhor que ninguém, somos todos ridiculamente engraçados quando vistos de perto. E todos temos o potencial para despertar a verdade e a poesia de um palhaço.

Seja bem-vindo.

Foto e texto por Cauê Madeira



Comentários

10 comentários | Comente »

  • Por Renata Mônaco em 9 de setembro de 2011 às 16:05

    Texto lindo, adorei!

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  • Por sofia papo em 9 de setembro de 2011 às 17:45

    MARAVILHOSO!!!!!!
    ADORE,É ISSO AÍ!
    ARRASOU!

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  • Por maria silvia em 10 de setembro de 2011 às 0:24

    Obrigada, Cauê, por essa homenagem à arte do palhaço! Emocionante! É sempre um grande prazer!

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  • Por Letícia Fagiani em 10 de setembro de 2011 às 0:33

    Prazer enorme compartilhar com essas ‘pessoas-palhaço’ do Clã – Estúdio das Artes Cômicas. Espero sempre tê-los por perto enriquecendo as experiências na BSP.
    Saudades de vcs domingueiros!

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  • Por claudete em 10 de setembro de 2011 às 10:03

    Amei ter tido a oportunidade de conhecer a BSP,é um local maravilhosamente acolhedor e lindo,é um sonho de biblioteca.beijos a todos.

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  • Por Rosani em 10 de setembro de 2011 às 13:49

    Somos todos palhaços. Viva! Vamos brincar a vida.

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  • Por Fabi Chiotolli em 10 de setembro de 2011 às 20:06

    Que bom ter visto. Ótima constatação: “Todo ser humano é risível…”

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  • Por Ilda em 12 de setembro de 2011 às 11:37

    Quando a gente aceita que podemos ser ridículos, aceitamos a todos. Esses excelentes atores mostraram isso para nós! Foi muito legal, não dava vontade de parar de ver. Parabéns!!

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  • Por Caio Franzolin em 15 de setembro de 2011 às 12:00

    E assim tudo acontece! Há teatro em todo lugar, há o ridículo em cada um, há humanidade nos olhos de todos.

    Que bom foi fazermos tudo isso sempre acompanhados, ligado ao público. O público no espaço público, ocupando um lugar comum de e à todos… compartilhando risos, sorrisos e alegria! Que cada vez mais isso aconteça na BSP!

    Obrigado à Equipe da BSP e todos os colaboradores!
    Beijos, Abraços e até mais!

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  • Por taylane em 14 de março de 2014 às 22:51

    ameiiiii o texto :)

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